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CARTA AO EDITOR

Granuloma alimentar: condição rara simulando tumor gástrico

Pulse granuloma: a rare condition mimicking a gastric tumor

Maurício Fabro; Sara Raquel Fabro; Rafael Santiago Oliveira de Sales; Luiz Pedro de Souza Júnior; Julian Catalan



Sr. Editor, Paciente mulher, 60 anos, com queixa de dor no hipocôndrio esquerdo, febre, vômito e diarreia, quadro iniciado há uma semana. Exames físico e laboratoriais não indicaram alterações significativas. Foi realizada ultrassonografia, que demonstrou imagem cística septada junto ao estômago, de paredes espessas e debris no seu interior, sem caracterização de fluxo ao estudo Doppler (Figura 1A). Realizou-se também tomografia computadorizada (TC), que identificou lesão parietal expansiva no corpo gástrico, medindo 5,9 × 4,5 cm, com impregnação pelo contraste nas paredes e septos, notadamente na fase portal, além de componente central hipodenso e sem realce, esses últimos achados podendo representar necrose (Figura 1B). Foram elaboradas as hipóteses diagnósticas de adenocarcinoma gástrico e tumor estromal gastrintestinal. A paciente foi submetida a endoscopia digestiva alta, que mostrou lesão elevada na grande curvatura gástrica, com mucosa ulcerada e irregular (Figura 2A). Foi realizada biópsia, com resultado inconclusivo, optando-se pela ressecção da lesão. O exame histopatológico da peça cirúrgica demonstrou tratar-se de granuloma alimentar (Figura 2B). A paciente obteve alta hospitalar no quinto dia pós-operatório, com posterior seguimento ambulatorial.
Figura 1. A: Ultrassonografia demonstrando imagem cística septada no hipocôndrio esquerdo, sem caracterização de fluxo ao estudo Doppler (seta). B: TC de abdome mostrando massa na parede do estômago (cabeça de seta). Estômago preenchido por contraste (asterisco). Figura 2. A: Endoscopia digestiva alta identificando lesão expansiva com mucosa ulcerada e irregular na grande curvatura do corpo gástrico (seta). B: Microscopia mostrando processo inflamatório granulomatoso, algumas vezes em paliçada, com numerosas células gigantes multinucleadas do tipo corpo estranho.
Granuloma alimentar é uma lesão benigna(1) e extremamente rara(2,3). Foi primeiramente descrito por Knoblich, em 1969, como lesão pulmonar(4). Em 1971, Lewars descreveu a primeira lesão oral(5), e somente a partir de 2001 foram publicados relatos da doença no tubo digestivo extrabucal(6). Caracteriza-se por reação granulomatosa crônica a corpo estranho de origem vegetal (CEV)(1), geralmente celulose indigerível, que se deposita abaixo da mucosa(3). A maioria dos pacientes tem histórico de doença intestinal (diverticulite, fístula, perfuração, colite ulcerativa, apendicite ou extravasamento de anastomose)(7), propiciando que o CEV atinja as camadas profundas da parede intestinal. A cavidade oral é o local mais acometido, sendo extremamente incomum a ocorrência em outros sitios(3). Todavia, encontram-se descrições de granuloma alimentar no estômago, intestino delgado, cólon, peritônio, mesentério, sistema geniturinário e pele(2,7). Acomete predominantemente homens(7), em ampla faixa etária, com estudos descrevendo casos em pacientes com idades entre 13 e até 85 anos(7). Os sintomas são vagos e inespecíficos(8), às vezes apresentando-se com dor e desconforto abdominal(2). O exame físico geralmente é frustro, mas massa palpável pode ser caracterizada(2,7). A avaliação por imagem do granuloma alimentar é usualmente feita pela ultrassonografia, com achados muitas vezes inespecíficos, ou pela TC, de maior relevância por sua elevada sensibilidade e especificidade para detecção e caracterização de corpos estranhos no trato gastrintestinal(8). Ainda assim, por não ser o CEV hiperdenso, normalmente o diagnóstico definitivo não é obtido pela TC. A endoscopia digestiva alta é uma ferramenta útil no estudo das lesões gástricas e permite a coleta de material para avaliação histopatológica. Entretanto, as biópsias endoscópicas são geralmente pequenas e superficiais, o que pode dificultar a confirmação diagnóstica do granuloma alimentar(8). O diagnóstico é de exclusão com base histopatológica(1). A possibilidade de granuloma alimentar deve ser aventada nos casos de lesões expansivas no trato gastrintestinal(8), tendo como principais diagnósticos diferenciais o adenocarcinoma, o tumor estromal gastrintestinal e os leiomiomas(8). O tratamento definitivo é cirúrgico(1). REFERÊNCIAS 1. Razavi A, Vlcek D, Kutten-Berger JJ. Oral pulse granuloma of the mandible – a case report. Swiss Dent J. 2014;124:665–76. 2. Geramizadeh B, Mousavi SJ, Bananzadeh A. Omental mass caused by pericolic vegetable granuloma: a rare case report. Ann Colorectal Res. 2014;2:e20233. 3. Yeo NK, Eom DW, Lim HW, et al. Vegetable or pulse granuloma in the nasal cavity. Clin Exp Otorhinolaryngol. 2014;7:334–7. 4. Knoblich R. Pulmonary granulomatosis caused by vegetable particles. So-called lentil pulse pneumonia. Am Rev Respir Dis. 1969;99:380–9. 5. Lewars PH. Chronic periostitis in the mandible underneath artificial dentures. Br J Oral Surg. 1971;8:264–9. 6. Rhee DD, Wu ML. Pulse granulomas detected in gallbladder, fallopian tube, and skin. Arch Pathol Lab Med. 2006;130:1839–42. 7. Nowacki NB, Arnold MA, Frankel WL, et al. Gastrointestinal tract-derived pulse granulomata: clues to an underrecognized pseudotumor. Am J Surg Pathol. 2015;39:84–92. 8. Shan GD, Chen ZP, Xu YS, et al. Gastric foreign bogy granuloma caused by an embedded fishbone: a case report. World J Gastroenterol. 2014;20:3388–90. Hospital Santa Catarina de Blumenau, Blumenau, SC, Brasil Endereço para correspondência: Dr. Maurício Fabro Hospital Santa Catarina de Blumenau – Radiologia Rua Amazonas, 301, Garcia Blumenau, SC, Brasil, 89020-900 E-mail: mauriciofabro@hotmail.com

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